30 março 2006

Descontentamento.

Pensei em fazer do blog um diário mas não consegui. Trago quase sempre para casa trabalho: seja preparar, seja corrigir. Acontece que o tempo que me resta faz-me falta para ler. Mas há dias em que preciso mesmo de escrever. É como quem 'despeja' para carregar menos! Hoje preciso.
Ouvi duas notícias: mais uma agressão a um professor e um rapaz que se delicia a atirar animais do alto das muralhas de um castelo. Eu posso continuar. Na escola onde estou e que considero pacífica, um aluno está internado há dois dias porque um colega lhe atirou uma pedra a um olho deixando-o com traumatismo craniano e em risco de perder a visão.
O que é isto? Que sociedade é esta? Porquê tanta violência?
E eu reflito. O que se passa com os pais destes filhos é a falta de consciência do que é educar. Pensar-se-á que educar é ralhar e dizer 'coisas', quando a educação é dada com exemplos e não com palavras. E esta questão vai mais longe quando vejo que isto é um problema estrutural. Vivo num país onde se 'diz' e não se faz. Penso nos sucessivos governos que falam em crise (de facto, várias crises) que impõem medidas, que prometem e que quando finalmente lá estão, fazem o que querem, e o que é mais grave, impunemente. Ninguém pede contas a ninguém. O descalabro social que a imprensa divulga para vender e atrair este tipo de público vulnerável, através de notícias como a pedofilia, a violência doméstica, os sacos azuis, as fugas ao fisco, o despesismo, etc, sem concluir com que o seria devido (fosse quando fosse) - as respectivas punições, é a grande lição de moral. Porque é que nunca se sabe do desfecho destes acontecimentos? Porque tudo se faz de forma impune neste país. É esta sociedade que o Estado fomenta. Tal como a Igreja, o Estado ao gerir o que está no alto, governa o que está em baixo. Esta mediocridade está a aumentar dia para dia e não vejo nada de concreto a ser feito. Vejo que na escola cada vez há mais papéis para justificar e desculpabilizar a falta de responsabilidade dos alunos e dos pais. Papéis que ficam arrumados e que ninguém vai ler para tratar a raíz dos problemas que é a família! Se o Estado realmente se preocupasse com as situações graves que existem e são denunciadas, muitas crianças já não eram alvo de violência dos pais há muito, e outras não teriam morrido.
Há medida que o tempo passa vou-me debatendo com um dilema pessoal. Já fui mais democrata do que hoje sou. Porquê?

28 março 2006

A Espantosa Realidade das Cousas


A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para ser completo
(...)
Alberto Caeiro

26 março 2006


É tão frágil a vida,
tão efémero tudo!
(Não é verdade, amiga,
olhinhos-cor-de-musgo?)

E ao mesmo tempo é forte,
forte de veleidade
de resistir à morte
quanto maior é a idade.

Assim aos trinta e sete,
fechados alguns ciclos,
a vida ainda pede
mais sentimentos, vínculos.

Não tanto os que nos deram
a fúria de viver,
como esses descobertos
depois de se saber

que a vida não é outra
senão a que fazemos
(e a vida é uma só,
pois jamais voltaremos.)

Partidários da vida,
melhor: do que está vivo,
digamos "não" a tudo
que tenha outro sentido.

E que melhor pretexto
(quem o saiba que o diga!)
teremos para viver
senão a própria vida?
Alexandre 0'Neill

23 março 2006


É a tal varanda, a varanda que me deixa observar.
Desde Setembro que estou na Batalha e que faço diariamente meia hora a pé. Observo e admiro. Admiro a preservação da identidade local com a reconstrução de casas baixas e a manutenção de um espaço antigo que cresceu à volta da obra magnífica que é o Mosteiro. Digamos que é uma geometria de oportunidade que se movimenta entre o volume que deu forma a este espaço. Há apartamentos novos, há uma câmara municipal, bastante contrastante com o resto em termos arquitetónicos, mas que não escapa em altura (nada pode ser maior ou igual ao mosteiro) e que não cresceu com azulejos, porque aqui é a pedra que impera. Tudo isto cohabita com o passado e em harmonia porque a diferença poderá ter sempre o seu lugar. Não foi preciso destruir para crescer e ser moderno. Foi preciso sim, preservar as referências passadas para identificar o presente!
Porque é que outros locais não são assim?
Devemos olhar os locais e vermo-nos a nós próprios enquanto agentes da mudança. Está lá o melhor e o pior de que somos capazes. As cidades, as vilas e as aldeias são feitas de nós, e da arquitetura difícil das nossas emoções e vontades. Os 'locais', sejam vilas ou cidades, são o produto de quem as habita e de quem as dirige. É nas cidades que projectamos as nossas maiores ambições e a grande ousadia dos nossos ideais.
Portugal é um país de novos ricos e de ignorantes pretensiosos. Qualquer um pode ter lugar numa câmara ou numa junta de freguesia e decidir, desde que para isso tenha sido fiel ao partido. Depois, ainda há a dança das cadeiras que altera tudo sem critério, desde que se contrarie o percurso anterior. A mediocridade banaliza-se e torna-se normal. O mau gosto alastra e tudo se confunde. Esperteza com falta de carácter e ambição com oportunismo.
É lamentável que muito do que nós fomos e devíamos continuar a ser tenha irremediavelmente desaparecido. Continuaremos a ser sempre um povo que se miscigeniza e descaracteriza.

Há tanto tempo que não escrevo nada! Logo hoje que chove tanto e que convida à reflexão eu mais uma vez não tempo!!
Mas gosto da chuva. As pessoas recolhem-se, agrupam-se, falam, trocam ideias. Difícil mesmo é sair e entrar nos pavilhões com os alunos todos à molhada a fazerem um barulho infernal. Eles não falam, gritam; não andam, correm; não conversam, discutem. Onde que isto irá parar? Preocupo-me com estas gerações futuras... Se está sol, são as 'hormonas' e tudo mais, se está a chover, ficam excitados com a chuva. O que é que será preciso para que se comportem civilizadamente? Educação. Mas também não há tempo para isso. Os pais têm muitos problemas, têm que trabalhar muito para lhes dar 'tudo'. Nunca dão por isso o que é fundamental. Nunca ensinam os filhos a gostar, a desejar, a pensar, a reflectir, a conversar, a respeitar e ser respeitados (sim, há alunos que nem se dão ao respeito).
Eu faço o que posso. Ainda hoje fiz mais uma conquista na turma difícil do Curriculo Alternativo.
Dou-lhes atenção, não levanto a voz (eles também já não o fazem), converso com eles, considero-os como considero os outros que tomam banho e têm família. Eu acredito na escola não só como fonte de saber mas também como fonte de intervenção social.

18 março 2006

Que bom ser mãe!!

Saudades!!!

17 março 2006

17 de Março 1977/2006
O amor é o amor
O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois a imaginar, a imaginar?..
O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito há todo o espaço para amar!
Na nossa carne estamos sem destino, sem medo,
sem pudor, e trocamos - somos um?
somos dois? - espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?!
Alexandre O´Neill

13 março 2006


Este fim de semana estive em Lisboa com a Joana. A imagem que escolhi para ilustrar o que me vai na alma é sugestiva! Não que eu não voe todos os dias. Tenho asas, espaço, vontade... e sei voar! A novidade é que há muito tempo não 'voava' acompanhada da Joana. É bom. É bom ter com quem conversar, é bom ouvir e ser ouvido, é bom poder estar acompanhada como se estivesse sózinha, isto é, completamente relaxada nos horários e nos desejos.
Fomos ao cinema, às compras, jantámos por aí e rimos das mesmas coisas (estou-me a lembrar dum taxista ontem à noite que parecia que estava morto em cima do volante, mas que por acaso ia a conduzir!). Foi bom filhota. Temos que repetir. Fez-me bem. Bj

08 março 2006


O dia da mulher!

Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim. A tua beleza aumenta quando estamos sós. E tão fundo intimamente a tua voz Segue o mais secreto bailar do meu sonho Que momentos há em que eu suponho Seres um milagre criado só para mim. Mar Sonoro, p. 16
Sophia de Mello Breyner Andresen

06 março 2006

Os nossos agentes da autoridade!

Na passada sexta-feira todos os nonos anos da escola foram a Lisboa ver uma peça de teatro. Como se pode imaginar, às 8,20h o único acesso à escola estava uma confusão. Chovia, havia três autocarros parados em frente ao portão da escola e uma fila compacta de automóveis, ora a chegar ora a tentar sair. Eis que estava eu sózinha no meu carro a tentar passar, quando um senhor agente da autoridade se me dirige irritado dizendo: "ó minha senhora, não vê a confusão que está aqui? Estacione o seu carro e vá a pé levar o seu filho à escola!!"
A primeira coisa que me ocorreu foi rir, mas lá me aguentei e olhando para dentro do carro perguntei-lhe: "Que filho? O senhor vê mais alguém dentro do carro?" O agente ficou admirado(?) mas continuou o seu discurso. "Então se não vai levar o seu filho porque é que está aqui? Não vê o transito?"
Eu compreendo o desgaste da profissão. Taditos!! Depois quando já nascem desfavorecidos...

05 março 2006

Gosto de Porto de Mós. Especialmente ao Domingo à noite, quando páro de girar a toda a hora para deixar tudo feito!!!
É bom conhecer o país por dentro, como tenho tido oportunidade de fazer.
Confirmo que a nossa tendência para o caos urbanístico é endógeno, portanto não deve haver aprendizagem que nos valha. Podia ser uma vila tão simpática, porque é pequena e tem marcas do passado tão bonitas, mas não. É igual ao resto do país. Ao lado destas construções também cresceram caixotes espelhados e prédios de mau gosto.
Amanhã lá vou concorrer mais uma vez. Que me ditará a sorte? Onde é que irei parar, agora por três anos?

01 março 2006

"Tenho-me esforçado por não rir das acções humanas, por não deplorá-las nem odiá-las, mas por compreendê-las." Baruch de Espinosa

É assim que começo, porque acho que é mais esta a minha forma de estar e sentir. Não vou fazer do blog um diário pessoal, mas um desabafo que ora pode ser irónico ou sério.
Hoje apetece-me dizer que da 'minha varanda' vejo coisas que mais ninguém vê.