24 abril 2006


A Laika foi operada hoje. O que é que há de extraordinário nisso?
Quando estava a 'adormecer' com a anestesia geral tinha uma lágrima nos olhos. Se não tivesse visto não acreditava. Como é que é possível? E ficou-me esse instante em que a fronteira entre os seres racionais e os irracionais é tão ténue!

22 abril 2006

Tour à moi même

Conhecermo-nos é compreender quem somos e porque razões somos assim.
Penso-me bastante (hoje e sempre) questiono-me ainda mais, procuro ser razoável, justa e coerente, o que ao longo da minha vida não me tem sido fácil, porque viver é como voar. Voa-se alto, voa-se baixo, voa-se para existir e voa-se para se ser melhor!
Como é que tenho voado?
Quando nasci, contava a minha mãe, que eu era doente. Não me lembro. Não posso lembrar-me de me baptizarem à pressa, no berço, porque 'amanhã' podia já ser tarde. Lembro-me claramente dos meus quatro anos, das vindas do médico e das enfermeiras a casa, lembro-me da minha irmã ser solidária comigo e dizer que ia furar os pneus do carro, para eles não voltarem lá a casa. Tenho saudades dessa cumplicidade.
Lembro-me da minha escolinha, sempre muito limpa, e do cestinho do lanche onde a minha mãe me mandava cerejas muito grandes e vermelhas. Lembro-me da minha irmã trocar o lanche dela, pelo pão com banha que davam na escola. Lembro-me de irmos ao circo, que era enorme e tinha elefantes, tigres e leões. Lembro-me da Nani e dos dois irmãos, o Helder e o Carlos. Eram nossos vizinhos no Porto. Lembro-me de chegar a carrinha do pão, e os 'moletes' (assim chamavam ao pão) serem tão bonitos. Ainda hoje vejo no Porto, pão com aquele formato. Lembro-me de irmos à praia e brincarmos muito! As nossas mães, paravam sempre num parque infantil e deixavam-nos brincar nos escorregas, nas pranchas, no comboio. Lembro-me que a minha mãe era bonita. Lembro-me de uns vestidos que eu e a minha irmã tínhamos (havia uma fotografia em que estávamos as duas sentadas no pátio com eles vestidos) e de umas chinelas cheias de missangas. Lembro-me de irmos ao Porto, sempre pela mão da minha mãe, andarmos de eléctrico e esperarmos em Matosinhos que a ponte abrisse ou fechasse. Saudades mãe.
Lembro-me de virmos para a Barra, para casa da avó Adelina, nas férias grandes. Lembro-me de como ela era meticulosa. Como ela tinha a casa sempre tão limpa, do cheiro a limpo e lavado naquelas camas, da despensa que tinha sempre a porta fechada porque era lá que estavam as guloseimas! Só ela é que nos dava e nós (eu e a minha irmã) não ousávamos abrir aquela porta. Mas dáva-nos sempre e do melhor. Lembro-me de irmos à loja do Sr. Mourinho comprar as coisas com ela. Lembro-me dos tanques onde se lavava a roupa e do camião da água que vinha de Ílhavo abastecer as casas.
Também íamos para Salreu, para casa da avó Margarida. Aí era a liberdade total. Andava sempre descalça e as ruas eram de paralelo muito incerto. Andava sempre com o dedo grande do pé, em ferida. Ia à loja do'Saramago' comprar manteiga. Lembro-me de vir pelo caminho a meter o dedo na manteiga e a comer. A minha avó reclamava sempre, dizendo que o 'Saramago' cada vez punha menos manteiga no papel vegetal e levava o mesmo dinheiro. Lembro-me de dormir na mesma cama que a minha avó e a minha irmã. Lembro-me que elas dormiam e eu não, com medo de fechar os olhos e as centopeias, que às vezes andavam pela parede, viessem para cima de nós. Lembro-me de brincar às peixeiras. Andava sempre com a canastra à cabeça a vender peixe, que eram diferentes folhas de árvores. Eu queria ser peixeira quando fosse 'grande'. Lembro-me de ouvir o homem da sineta andar pelas ruas a tocar quando morria alguém. Lembro-me de ir à fonte buscar água boa para beber e ir para o rio e brincar com a minha irmã. Lembro-me das vindimas e das desfolhadas. Era uma alegria.
Fui crescendo. Na transição do Porto para a Gafanha vivemos em Salreu. Lembro-me de muitos episódeos. Os que me ficaram: a morte do Bobi, o nosso Bobi. O que eu chorei. Sepultámo-lo por baixo de uma laranjeira. E lembro-me da presença da minha avó Adelina lá em casa. Sempre a pedir-me que pusesse os sapatos direitos, a par um do outro porque assim é que estavam arrumados e sempre a dizer-me: 'Paulinha, vai ali filha e estica o pano da louça porque não está direito. Paulinha põe aquele casaco direito, puxa a ponta daquela toalha que não está direita. 'E eu só dizia: 'Ó avó porque é que tu não pedes isso à minha irmã? És tão chata!'
Minha querida avó, como te agradeço o que fizeste por mim. Nem sabes como me ensinaste a ser limpa e arrumada. Que pena não estares hoje aqui para veres que sou como tu gostarias que eu fosse. Foi obra tua avó, tenho a certeza.
Viémos viver para a Gafanha. Não gostámos nada. Eu e a minha irmã deixámos os nossos amigos de Leça e de Salreu. Mas o meu pai deixou os navios de pesca no Porto e começou a fazer viagens ao bacalhau com ponto de partida e chegada na Gafanha. Esse tempo foi muito... O que me marcou? Os Verões em que estava sempre de cama doente e a minha irmã a ir para a praia com as amigas. As visitas do padre Domingos. Eu detestava. Uma vez estava tão doente que pensei que tivesse vindo dar-me os últimos sacramentos. Que horror. Disse à minha mãe e ele nunca mais lá foi. Limitava-se a perguntar como é que eu estava.
As minhas brincadeiras com o meu primo Zé Luis. Brincávamos às casinhas. Adorava brincar com as bonecas. Esquecia-me do tempo. Bonecas que não tinha e que inventava. Claro que me lembro imediatamente (porque será?) das bonecas que o meu pai trazia do Canadá à minha irmã. Comigo gastava-se muito dinheiro em medicamentos. Eu sei mãe que não foi por mal. Eu sei que se pudesses não tinhas dito isso, porque sabias que se alguém não gostava de estar doente era eu. Sabias também que se alguém brincava com bonecas era eu.
Lembro-me de um Natal em que eu e a minha irmã só recebemos uma caixa pequena com chocolates. E lembro-me que o meu pai não falava e a minha mãe estava triste. Vivia-se um momento financeiro muito difícil. O meu pai estava desempregado e o meu irmão tinha nascido.
Lembro-me que o meu pai deixou de fumar porque não havia dinheiro para tudo e 'o leite e o pão não podia faltar às meninas'. Lembro-me tão bem da mesa da cozinha e do prato da sopa! Ainda hoje não gosto da sopa de favas por tanto a ter comido.
Mudámos de casa várias vezes na Gafanha. Estudei em Ílhavo durante o 1º e o 2º ano do então Ciclo Preparatório. Lembro-me que tinha nove anos e ia sozinha na camioneta para Ílhavo. Lembro-me que com 9 anos tinha já feito o exame de admissão ao Ciclo Preparatório com três professores a inquirir-me num liceu enorme e intimidante!
E não tenho propriamente grandes recordações desse tempo porque tive professores autoritários e arrogantes. Ficaram-me para sempre aquelas reguadas violentas com o compasso do quadro que a prof. Glória de E.V. me deu por não ter ouvido o toque e não ter chegado no mesmo momento que ela à sala. Ficaram-me as preferências dela por alguns e algumas colegas da sala que eram sempre protegidos e por vezes injustamente desculpados.

12 abril 2006


A modernidade
Podem achar-me antiquada, pouco aberta às 'novas tecnologias', etc., mas no que diz respeito à limpeza, continuo a preferir os produtos de antigamente. Sem dúvida. Eu posso falar porque sei de tudo o que há para nódoas. E alguns funcionam, mas muitos não.
Inventam tudo para o 'aqui e agora' mas nada que dure e se mantenha, e isto tudo porque dantes (sim, eu sou desse tempo e embora tal como hoje, detestasse cozinhar, limpar e desinfectar, foi sempre um dos meus campos de intervenção) tudo era simples: cera para soalhos e tijoleiras de barro e outros igualmente simples para superfícies cerâmicas. Quando as ceras envelheciam ou se queriam mais frescas, 'retirava-se' com aguarrás (terebentina) a última camada, e aplicava-se uma vez mais cera nova. E cheirava a limpo e ficava lindo. Agora inventam-se produtos e mais produtos para 'substituir' os anteriores que precisavam de manutenção, (estes não precisam de manutenção, diz quem os concebe) mas que como é evidente, também se deterioram. E com agravantes: não há manutenção possível, só tirando tudo, e a cada produto corresponde um removedor específico que nem sempre funciona e que bem vistas as coisas estraga mais do que compõe. Este é o lado perverso da modernidade.
Se eu extrapolar isto para outros campos, concluo (por experiência própria) que o que é simples será sempre o mais eficaz. A vida também é assim: somos nós que a complicamos.
Ando há dois dias para retirar a cobertura do produto que a tijoleira tem, já gastei 50euros, já pus o furacão 'emily' a esfregar e parece-me que só arrancando a tijoleira e aplicando uma nova. Férias!

11 abril 2006

A D.Emilia!

Que saudades eu tinha da imbecilidade da D. Emilia!
Começou por dizer que o raças do ferro era uma porcaria e que a punha numa pinha de nervos porque às vezes passava bem, outras vezes prendia na roupa. Expliquei-lhe que a cabeça é para usar e que o ferro tem várias temperaturas. 'Aonde é que estão as temperaturas?' Peguei no ferro deslizei o botão e mostrei-lhe explicando que o botão não pode ser automático porque quem está a passar é que tem que reduzir ou aumentar a temperatura, consoante o tipo de tecido. Diz que na casa dela não tem que fazer nada disso. Adiante...
Pouco depois de ter saído (final da tarde), tocou o telefone. Era a D.Emilia. Estava muito impressionada com uma coisa que tinha visto cá em casa. Com uma coisa que se tinha passado e estava numa pinha de nervos. Primeiro que desembuchasse, tive que ouvir que trabalha há quarenta anos e nunca tal lhe tinha acontecido, que não se podia calar e que não havia necessidade das coisas chegarem a este ponto?' Diga se faz favor o que se passa se não vejo-me obrigada a desligar o telefone!'
Então começou: Isto é assim. Eu acabei de passar a ferro e fui pôr o lixo ao contentor atão num foi? Quando benho à cozinha pra me despedir, bejo 10 eurios im cima da banca! Ora fiquei a olhar pra eles. Eles num estabam lá, ata não? E pensei: a D. Paula pos-me aqui este dinheiro pra mesprimentar. E eu nunca roubei ninguém mulher!'
Contendo-me para não me rir (até porque começo a não achar muita piada...) disse-lhe que o dinheiro estava ali para não me esquecer de pagar uma lata de diluente ao meu sobrinho que estava lá em casa e ma tinha trazido. 'Naquele sítio D. Paula?' voltou ela à carga. 'À vista de toda a gente?' Sim, naquele sítio. Estava na minha casa e não desconfio de ninguém, razão pela qual a minha única preocupação era ter o dinheiro em local visível para não me esquecer de o entregar!' É claro que não se calou continuando sempre a insistir que as unhinhas dela nunca tinham tocado em nada que era dos outros! E eu só pergunto: e quem é que disse o contrário? Será que tenho mesmo que aturar isto?