19 outubro 2006


Como é bom descobrir e sobretudo descobrirmo-nos!
Apesar ter identificado sempre as minhas vontades, nunca fui uma pessoa premeditada, por isso, as coisas acontecem na minha vida, porque têm que acontecer(estão decididas na minha cabeça e isso é um imperativo), mas quando acontecem, e porque não estão calculadas ou programadas, acontecem dentro das circunstâncias do momento, e isso tem feito com que eu tenha desenvolvido em mim uma capacidade de me adaptar e gostar do mundo e das coisas, que me continua a surpreender.
Quando recomecei a estudar(era uma decisão tomada), encontrei várias dificuldades, porque não esperava que na primeira tentativa, já lá estivesse. Foi um percurso muito pessoal e que me fez crescer para dentro de mim própria. Depois o trabalho e a adaptação constante aos desafios. Aceitei-os sempre e aprendi muito. Depois voltei à universidade(outra decisão),mas agora a trabalhar, a estudar, a fazer kms e a ter vida familiar.Foi difícil, mas foi mais um dos momentos da minha vida pessoal que guardo com gosto. Chego à conclusão que gosto de estudar. Tive que parar e foram 9 anos! Acontece que estou a continuar este ano, e como não sou premeditada, o único seminário que preciso de frequentar este semestre e que podia ser à minha escolha, teve que ser o que acontece às quartas-feiras porque é o único dia em que posso estar presente. E esse seminário, dentro dos Estudos Literários Norte-Americanos, discute alguns dos textos dramáticos escritos no séc.xx. Ora texto dramático é para mim um drama!
É mais um desafio. Bem vistas as coisas são dois desafios: o primeiro, porque não sei se vou conseguir vencer esta etapa(não sei mesmo se sou capaz) e o segundo, porque tenho que desenvolver uma linha de investigação que envolva o texto dramático!
Onde é que surpreendentemente me descubro? Logo na primeira peça de Samuel Becket:"Waiting for Godot". Mal posso esperar por fazer um close-reading completo, e mais, até já me apetece começar aqui a descobrir os mitos públicos e as colisões privadas no teatro. Acho que este é mais um bom momento da minha vida.

12 outubro 2006

( A casinha do Kafka )
" De um certo ponto adiante, não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado"
Franz Kafka

04 outubro 2006

Este ano estou a leccionar Português ao 10º ano. É um desafio para mim, porque se há assuntos que me preocupam, é o bom Português. Fiquei contente pelo facto de os programas terem mudado. Finalmente se teve consciência que conhecer Camões, Gil Vicente, Fernando Pessoa, Garrett, Antero de Quental, Saramago(...) é importante, mas primeiro é preciso percebê-los. Falar de iliteracia e testá-la, é o primeiro passo.
Hoje na aula, os alunos, primeiro ficaram muito espantados com um artigo que, devidamente identificado, revelava que apenas um quinto da população portuguesa,entre os 15 e os 64 anos, tem competência para perceber o que é escrito, e depois riram-se com um outro que dava conta dos maus exemplos do português falado, não nas aldeias mas nos meios citadinos. Curiosamente, identificaram logo a "runião", o "xelente", a "tevisão", o "estrordinário", o "tefonar", a transformação de vogais abertas em fechadas e a supressão de sílabas, entre outros, como o português vindo da capital. E isto é triste se pensarmos que é a televisão ao dar tempo de antena às Bobones, às Caneças e às Castel-Brancos que fomenta isto! Não tarda muito que se institua o erro como norma porque é falado por gentinha iletrada que entra pelas casas dentro através do monstruoso poder da televisão.